Razões para viver
- Equipe | Isolda Lins Ribeiro
- há 3 horas
- 4 min de leitura
Pequenas âncoras em momentos difíceis

Em momentos de sofrimento intenso, em que a pessoa pode sentir que perdeu o acesso às próprias razões para continuar. Isso não significa que essas razões deixaram de existir. Muitas vezes, significa apenas que a dor está ocupando espaço demais.
A lista de “razões para viver” que apresentamos abaixo é uma tradução livre para o português do trabalho clássico da psicóloga norte-americana Marsha M. Linehan e colaboradores, que desenvolveram o Reasons for Living Inventory. Marsha Linehan (1943 - atual) é a criadora da Terapia Dialética Comportamental, uma vertente das abordagens de base cognitivo-comportamentais, que desenvolveu após anos de sofrimento pessoal e internações psiquiátrícas em decorrência de seu diagnóstico de transtorno de personalidade borderline.
Esse instrumento foi criado para investigar fatores cognitivos, afetivos, relacionais, morais e existenciais que podem funcionar como proteção em momentos de crise suicida. A proposta não é usar frases prontas para negar o sofrimento, nem sugerir que a pessoa deveria “pensar positivo”. Ao contrário: trata-se de ajudar a pessoa a identificar pontos de sustentação que ainda possam existir, mesmo quando a dor psíquica está intensa demais.
As razões para viver podem envolver vínculos familiares, responsabilidade com filhos, crenças pessoais, medo da morte, projetos futuros, desejo de cuidado, esperança de melhora, curiosidade sobre o futuro e a percepção de que ainda existem alternativas possíveis.
Abaixo, reunimos exemplos de razões para viver, adaptados em linguagem clínica e acessível a partir desse referencial.
Listar razões para viver pode ser uma forma de cuidado. Não se trata de romantizar o sofrimento nem usar de ideias "clichê". Trata-se de ajudar a pessoa a reencontrar vínculos, valores, responsabilidades, desejos e possibilidades que ainda podem funcionar como pontos de sustentação.
Razões ligadas ao cuidado consigo
Eu mereço receber cuidado.
Minha dor precisa ser escutada, não escondida.
Eu posso pedir ajuda antes de tomar decisões definitivas.
Eu não preciso resolver tudo hoje.
Uma crise pode passar, mesmo quando parece insuportável.
Eu posso aprender novas formas de lidar com meus problemas.
Eu já atravessei outros momentos difíceis.
Meu sofrimento atual não define toda a minha história.
Eu posso me permitir descansar antes de decidir qualquer coisa.
Eu posso aceitar ajuda, mesmo que uma parte de mim esteja sem esperança.
Razões ligadas às pessoas importantes
Existem pessoas que se importam comigo.
Alguém pode sofrer muito se eu desaparecer da vida dessa pessoa.
Eu posso não conseguir perceber agora, mas minha presença tem valor para alguém.
Minha família, meus amigos ou pessoas próximas podem querer me ajudar.
Eu posso procurar alguém antes de ficar sozinho(a) com a dor.
Ainda posso construir relações mais seguras e mais saudáveis.
Existem pessoas que ainda não conheci e que podem ser importantes na minha vida.
Eu posso permitir que alguém caminhe comigo neste momento.
Eu não preciso proteger os outros escondendo meu sofrimento.
Pedir ajuda também é uma forma de vínculo.
Razões ligadas aos filhos, família ou responsabilidades afetivas
Eu posso querer ver meus filhos, sobrinhos, alunos ou pessoas queridas crescerem.
Ainda há conversas importantes que posso ter.
Ainda há afetos que posso oferecer e receber.
Minha presença pode ser importante para quem depende de mim.
Eu posso cuidar de quem amo sem deixar de cuidar de mim.
Minha história com minha família ainda pode mudar.
Eu posso reparar, reconstruir ou ressignificar relações.
Eu posso ser lembrado(a) pela minha presença, não apenas pela minha dor.
Eu posso escolher não tomar uma decisão definitiva em um momento de crise.
Eu posso esperar até estar acompanhado(a) e protegido(a).
Razões ligadas ao futuro
Ainda existem experiências que eu não vivi.
Ainda existem lugares que eu não conheci.
Ainda posso aprender algo novo.
Ainda posso mudar de opinião sobre mim mesmo(a).
Ainda posso encontrar tratamentos que funcionem melhor.
Ainda posso viver dias menos pesados.
Ainda posso construir uma rotina mais possível.
Ainda posso realizar planos pequenos, não apenas grandes projetos.
Ainda posso me surpreender com o futuro.
O que parece fechado hoje pode se abrir com tempo, cuidado e tratamento.
Razões ligadas ao tratamento
Sintomas psíquicos podem ser tratados.
A desesperança pode diminuir.
O sono pode melhorar.
A ansiedade pode ser cuidada.
A depressão pode receber tratamento adequado.
A dor emocional pode ser compartilhada em psicoterapia.
Medicamentos, quando indicados, podem ajudar na estabilização.
Uma equipe de saúde pode ajudar a organizar os próximos passos.
Eu posso precisar de cuidado intensivo agora, e isso não é fracasso.
Procurar ajuda é uma atitude de proteção.
Razões ligadas à identidade e ao sentido
Eu sou mais do que este momento.
Minha vida não se resume à minha pior fase.
Ainda existem partes minhas que querem viver.
Eu posso reencontrar propósito aos poucos.
Eu posso construir uma vida diferente da que tenho agora.
Eu posso me permitir não saber todas as respostas.
Eu posso existir sem precisar provar valor o tempo todo.
Eu posso ser cuidado(a) sem precisar estar bem.
Eu posso recomeçar de forma pequena.
Permanecer vivo hoje pode ser suficiente por hoje.
Razões simples, concretas e imediatas
Tomar um banho.
Dormir e decidir depois.
Comer alguma coisa.
Ligar para alguém.
Ficar acompanhado(a).
Ver meu animal de estimação.
Ouvir uma música que me acalma.
Sair de um ambiente que piora minha crise.
Chegar até a próxima consulta.
Atravessar apenas as próximas horas.
Como usar essa lista
Escolha de 5 a 10 frases que façam algum sentido para você, mesmo que pequeno.
Escreva no celular, em um papel, na agenda ou no plano de prevenção. Compartilhe com alguém de confiança ou com seu terapeuta.
A pergunta não precisa ser: “Por que viver para sempre?”
Em uma crise, a pergunta pode ser apenas: “O que pode me ajudar a continuar seguro(a) hoje?”
Em caso de crise
Se houver risco imediato, não fique sozinho(a) e procure ajuda. O CVV atende pelo telefone 188, 24 horas por dia e sem custo de ligação. Também é possível buscar atendimento em CAPS, UBS, UPA, pronto-socorro, hospital ou SAMU 192, conforme a gravidade e a disponibilidade local. Veja nosso post sobre Plano de Prevenção ao Suicídio.
Mensagem final
Razões para viver nem sempre aparecem como grandes certezas. Às vezes, começam como pequenos pontos de apoio: uma pessoa, uma consulta, uma noite de sono, um pedido de ajuda, uma chance de atravessar o dia com segurança.
Referência
LINEHAN, Marsha M.; GOODSTEIN, Judith L.; NIELSEN, Susan L.; CHILES, John A. Reasons for staying alive when you are thinking of killing yourself: The Reasons for Living Inventory. Journal of Consulting and Clinical Psychology, v. 51, n. 2, p. 276–286, 1983.


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